domingo, 28 de maio de 2023

NÃO ACUMULE CONHECIMENTO: USE O CHAT GPT!

É preciso investigar o que se esconde por trás desta afirmativa aparentemente ingênua. Porque é mais importante uma felicidade abstrata, produzida pela escola, lugar de tensões, sobretudo pelo relacionamento entre os diferentes (e isso é o mais positivo que a escola tem), que a apropriação de conhecimentos clássicos, históricos e que ainda não foram refutados? O que seria felicidade para um estudante? Brincar, conversar? Numa sala com 25 alunos (há salas com 60), todos gostam da mesma brincadeira e são felizes com todas as propostas brincantes? As novas propostas de educação para a escola de fundamental propaladas por organismos internacionais seduzem aos pais, pois é uma proposta de fazer com que seus filhos sejam felizes no futuro, ante ao cenário de desemprego que se desenha no presente. Tais propostas educativas para a promoção da emoção e da felicidade propagam que os (des)empregos do futuro não necessitarão de formação acadêmica, logo, as crianças não precisam ser "sacrificadas" com acúmulo de conhecimentos hoje, bastam aprender a ser resilientes, ou seja, reconstruir-se a partir do nada, empreender-se com os parcos recursos que (não) têm! E, caso precisem conhecer algo, basta pesquisar nas redes (chat Gpt). A escola fundamental hoje precisa cimentar o caminho para a aceitação do Novo Ensino Médio, pois se na educação inicial (fundamental) se propõe estudar para as emoções, caberá ao Ensino Médio manter tal estrutura, e portanto, apenas projeto de vida, que poderíamos chamar de projeto de reprodução da precária existência, dará conta de atender adolescentes que chegarão neste nível sem qualquer elemento científico, seja da matemática, da língua portuguesa, história, geografia ou ciências da natureza, para prosseguir em tais estudos. Vale afirmar que as escolas privadas da elite (escola privada da classe trabalhadora está sob a mesma lógica da escola pública), continuará reivindicando, se apropriando e brigando pelos conhecimentos clássicos, pertencerá a ela (e já pertence) o domínio e difusão das ciências clássicas.

A escola, portanto, que em certa época fora julgada por preparar estudantes para o trabalho, hoje é aplaudida e ansiada para prepará-los para o desemprego. O papel do conhecimento clássico para nós que os defendemos como instrumentalização dos sujeitos, não é prepará-los para a universidade, para o trabalho, e sim, conceder-lhes conhecimento suficiente para compreender as bases de sustentação da sociedade em que se vive. 

Firmim, teórico haitiano que refutou Gobineau sobre a teoria da supremacia branca, só o fez por dominar as bases teórico-metodológicas e intelectivas do racista francês. Se o haitiano não dominasse os conhecimentos clássicos a teoria gobineana de superioridade do branco sobre o negro, amplamente divulgada, aceita e usada, inclusive no Brasil teria se firmado por muitos anos, sob uma ótica científica. É preciso se perguntar por que há tanto interesse em desqualificar conhecimentos históricos e negá-los aos nossos filhos, sob discursos que nos convence inclusive de abrir mão de tais conhecimentos. Retirar da escola os conhecimentos clássicos nos torna reféns de teorias que, pela falta das bases teóricas nos impelem a aceitá-las reproduzi-las e com isso nos desumanizamos.

O papel da educação, portanto, não deve ser de prever o futuro, de como serão as novas formas de trabalho, mas de tentar garantir humanização e participação social, a partir do que se tem no presente. Sem conhecimento da estrutura na qual se organiza a sociedade e o Estado, o aluno/sujeito social, estará alijado das discussões que determinam sua própria vida. À escola cabe,  sobretudo, não abrir mão de socializar conhecimentos clássicos que fundamentam a vida desde sempre. Logo, faz-se urgente, exigir que tenhamos o mais rico conhecimento já desenvolvido até os dias atuais, não podemos abrir mão de dominar o que os dominadores dominam, sob o risco de sermos mais uma vez escravizados pelo desconhecimento, pela ignorância. Conhecimento é poder! E quem sabe disso quer negá-lo a nós! 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

SAÙDE MENTAL NAS ESCOLAS?

As pessoas que vêm discutindo saúde emocional nas escolas, em sua maioria, atua mais no ataque ao trabalhador da educação que na defesa de uma saúde mental efetiva. O lamento é que tais pessoas arrastam multidão por falar em "educação para o futuro", metodologias ativas, aprendizagem para a felicidade. No entanto, vale lembrar aos distraídos, que tais pautas são as mesmas do Banco Mundial, da OCDE, do Bid, e dos organismos internacionais de modo geral. É fundamental perguntar, por que este modelo de educação, fundamentado nas bases de Piaget, que desenvolveu uma pedagogia para crianças com "retardo mental" (assim eram chamados na época em que Piaget desenvolveu sua teoria), e tal como fora preconizada, essas teorias vem sendo trazidas para dentro das escolas, e por que esse modelo de educação é pensado apenas para os países pobres e continente africano? As justificativas em torno da defesa de uma "escola alternativa" é de que os alunos ainda não atingem as metas das avaliações, é claro, e nem um pouco novo para nós, que a realidade seja essa mesma, uma vez que a escola, que agora atua por motivações e prazeres do aluno não pode mais reprovar, exceto se este ficar muito aquém daquilo que é proposto como rudimento de leituras e cálculos matemáticos, entenda rudimentos como rudimentos mesmo. justificam ainda, que as profissões do futuro não necessitarão de domínio das ciências, pq o chat GPT tem tudo. Ora, as enciclopedias também sempre tiveram e nem por isso a elite abandonou a escola. Outra justificativa ancora numa probabilidade de não existir mais profissões que necessitem de conhecimentos acumulados, me lembrei de Gobineuau que criou uma teoria racista e que Firmim, homem preto, só conseguiu refutá-lo por dominar as bases teórico-metodológicas usadas pelo racista em questão. Ou seja, se o dominado não domina o conhecimento do dominador, ela permanecerá na posição de dominação. Pessoas, que autointitulam-se pedagogas, atacam frontalmente os professores, retirando muitas coisas de contexto, criando um enredo fictício para seduzir e convencer desatentos. Entristece-nos saber que alguns amigos compartilham de um sentimento de animosidade em relação aos trabalhadores da educação. O adoecimento desses trabalhadores perpassa, principalmente, pelo ataque desferido pelas famílias e, sobretudo, por pessoas que se intitulam mais capacitadas que os professores para atuar em sala de aula. Pessoas que operam em campo abstrato, ignorando as tensões do dia dia nas escolas, as diversas aflições das crianças, das famílias e dos trabalhadores. E que, o conjunto de frustrações sociais, fora da escola, são levados para dentro delas e impostos sobre as costas dos professores. A proposta de uma escola que nega a função ontológica do professor, cumpre apenas o objetivo de descaracterizá-lo como tal e assim, ao não reconhecer sua função, fica sujeito de uma sociedade que exige tudo deste trabalhador, que seja psicólogo, pai/mãe, irmão, amigo, menos professor, aquele que transmite o conhecimento que adquiriu ao frequentar uma universidade e permanecer debruçando-se em pesquisas e estudos.
a Santos e outras 3 pessoas

domingo, 16 de abril de 2023

Violência nas escolas, socioemocional segurança

 Nunca se falou tanto em cuidar do socioemocional da criança como atualmente. A violência nas escolas escancarou um problema urgente e delicado. O que me aflige é, de que emocional se fala, do concreto ou do abstrato? Concretamente muitos sujeitos sofrem bullying dentro e fora da escola, essa é uma questão importante, no abstrato essa violência se relativiza. Normal vermos em todos os cenários a reivindicação de padrão de beleza, fulano/a é bonito/a, pq tem olhos tal, pele branca é magro/a. Hum, "até" que é gordinho/a, mas é bonito/a, é preto/a, mas é bonito... No concreto temos de tentar apontar a subjetividade desses padrões, afirmar que a beleza para alguns pode ser feiura para outros e etc. A questão da pobreza tb se configura como fator, mostrar pra nossas crianças que ser pobre não é culpa de pai e mãe, ser honestos de que a escola não garante ascensão social/econômica. A violência, penso eu, se instaura porque os padrões de beleza, riqueza, inteligência são muito bem definidos socialmente e a escola os reproduz, claro que por ingenuidade, mas ainda assim, por muitas vezes reproduzimos padrões sociais estabelecidos que aprofundam problemas emocionais. Certamente uma questão que não venceremos no abstrato. Fazendo discursos genéricos de que todo mundo é especial, ao mesmo tempo que reforçamos os padrões "aceitáveis"!

domingo, 9 de outubro de 2022

Todos Pela Educação: Que luta se constrói no horizonte?

 

 O que é educação? Para que serve a escola? Qual a função ontológica do professor? Quando o assunto é educação, pelo que se luta? Que conceito de qualidade está sendo demarcado? Se o Estado é o "gestor dos interesses da burguesia" temos o mesmo alinhamento para a educação que estes?

Perguntas que parecem simples não ocupam, quase nunca, o debate em torno da luta em defesa da educação dos filhos da classe trabalhadora. Educação ganhou esfera tão abstrata que hoje qualquer coisa ganha status de educação, mas e a educação escolar, iremos defini-la? 

(...) cada trimestre de aprendizagem perdida, considerando estudantes do 1º ao 12º ano, provocaria perda de 3% na renda por toda a vida profissional. Isso, segundo os economistas, representa um custo de longo prazo que varia de US$ 504 bilhões na África do Sul a US$ 14,2 trilhões nos Estados Unidos, a cada três meses de aprendizagem perdidos (PINTO, 2021, p. 3- 4)

A escola capitalista sustenta, incorpora e tem por bandeira o discurso de educação para formação do indivíduo, buscando criticar e até invalidar a escola revolucionária, marxista, que defende uma  educação com vistas ao avanço coletivo do sujeito enquanto ser social. O excerto acima diz respeito ao relatório da OCDE no trato das políticas de retorno presencial em tons de urgência, mesmo sem qualquer política de controle da pandemia da COVID-19. Tal fragmento fora escrito antes mesmo de a vacina ser realidade e até mesmo uma possibilidade, ou seja, não havia no horizonte qualquer cenário de contenção do vírus, de diminuição das mortes e de controle mínimo que fosse do caos instaurado pela pandemia. Havia uma preocupação colossal com a economia individual dos alunos e de maneira geral a economia dos países. Sem esconder que a maior preocupação em torno da escola da classe trabalhadora reside no fato de esta formar para os interesses do mercado. E um mercado que é fluído, instável e mutante. O que não se configura novidade quando o assunto são políticas de educação para a classe trabalhadora. É essa a relação educação-economia, embora haja muita ingenuidade ainda no seio da sociedade, acreditando num projeto de educação salvadora. Retomemos, portanto ao século XVII quando Comênio defendeu na "Didática Magna" o "Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos" sem exceções, nos anos da puberdade independente se meninos ou meninas. A burguesia, no entanto trata de repensar, ou ignorar a carta, seguindo os parâmetros educacionais ditados por Mandeville¹ em que ele afirma:

"o saber ler, escrever e conhecer a aritmética consistem em artes muito nocivas para o pobre obrigado a ganhar o pão de cada dia mediante sua faina diária, o que significa que cada hora que esses infelizes dedicam aos livros é outro tanto de tempo perdido para a sociedade e nenhum reino necessita de maior rigor na supressão total do ensino de ler e escrever do que o reino português."

Numa coisa temos que concordar: a classe burguesa sabe como não dar o peixe e simular o ensinar a pescar após fazer secar todos os rios e quebrar as varas, destruir o barcos e as redes, pois, de fato hoje existem escolas para todos, ao menos no discurso, e um número cada vez mais crescente de estudantes têm acessado à escola pública, o que não se pode dizer é que tais estudantes tenham acesso aos conhecimentos defendidos por Comênio, para essa instituição, aliás, como exposto tanto na citação que abre este texto, referindo-se a esta fase atual (pandemia), quanto na escrita no século XVII pelas penas de Mandeville, a educação/conhecimento precisa estar a serviço da economia. A escola, portanto reduziu-se ao meros rudimentos da leitura, escrita e cálculos matemáticos simples. Com as recentes normativas a escola precisa cuidar preponderantemente do comportamento, do socioafetivo dos alunos. Aliás os conteúdos socioafetivos que já estavam implícitos nos currículos escolares como o aprender a conviver, aprender a ser, hoje escancara tanto normatizado pela BNCC como discurso efervescente na elaboração do pós covid-19. Atualmente, o mais importante na educação escolar é o trato da saúde mental dos alunos e dos professores, ao menos no campo do discurso, já que no campo da prática o que temos é a culpabilização do professor e da escola pelo baixo rendimento dos alunos nas provas internacionais/externas, numa escola que prepara exclusivamente para o mercado (nem mais o do trabalho, mas o do desemprego), a escola que um dia afirmou preparar para o trabalho, atualmente se mostra claramente preparando para ocupar uma fila de desempregados, os que alcançam um posto de trabalho, são os que furam a bolha, ou os que advém de classes num estrato dr exploração diferenciada. Aos demais a sorte se lança sob a alcunha de empreendedorismo. Numa classe tão alijada das necessidades imediatas a questão que se coloca, para além da falta de conhecimentos científicos dos quais ficarão à margem é empreender a partir do quê? Quais instrumentos terão para tanto? É um salve-se quem puder, ou como dito na atualidade: "vocês que lutem!"

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

POR QUE DEVEMOS PRIVILEGIAR O CONHECIMENTO CIENTÍFICO CLÁSSICO NUMA SOCIEDADE DE CLASSES?


 A sociedade de classe surgiu simultânea à propriedade privada, lógico que nem sempre apresentou o formato contemporâneo, todavia, desde sempre privilegia uns em detrimento de outros. O que se pode concluir, portanto, é que nesta sociedade toda substância, física ou não, ganha status de mercadoria, basta que seja possível produzir lucro a partir dela. Com o conhecimento científico não é diferente. Logo, enquanto existirem sociedades de classes e o conhecimento for a base de sustentação da classe em domínio é fundamental que a classe trabalhadora tenha acesso a tais conhecimentos, a fim de elevá-la ao mesmo nível de domínio científico, intelectual e cultural, que em todas as medidas a subjuga. Entendo que tais conhecimentos sejam armas de luta de manutenção da classe no poder, que dominam os códigos, leis da natureza, desenvolvimento humano ao longo de toda evolução social, compreende processos psicológicos que libertam e/ou subjugam homens (gênero humano). Há porém quem afirme que estes conhecimentos sejam aculturamento da classe trabalhadora, uma vez que esta classe já possui cultura própria e que, portanto o conhecimento clássico, em sua maioria vindo de países europeus sejam invasores na vida daqueles que vivem do trabalho. Concordaria com tal afirmativa não fossem alguns destes conhecimentos científicos parte do avanço de humanização do homem (aqui homem sempre será usado como gênero humano), tal como o conhecimento que inventou o fogo, a roda, a medicina, os cálculos, a orientação geográfica, a compreensão do homem como um sujeito que sente, pensa... Conhecimentos estes elaborados por povos originários, e que são estes os conhecimentos que vêm sendo negados, secundarizados, uma vez  que foram alçados ao status de mercadoria e, consequentemente propriedade privada de um grupo seleto e minúsculo que inclusive determina o que se pode ensinar e até onde ensinar aos filhos da classe que vive do trabalho. Precisamos criar uma linha que apresente os limites e possibilidades dos conhecimentos populares, muitos deles, ou a sua maioria, contribuindo apenas para a manutenção da vida (ou seja, apenas para sobreviver), e reivindicarmos os clássicos, claro que nem todo clássico, mas os que promovem desenvolvimento, avanço e com isso eleva o processo de humanização e emancipação dos sujeitos. Estes conhecimentos científicos, muitos descobertos por povos nativos ainda que aperfeiçoados pelos avanços sociais e tecnológicos, ampliaram e agilizaram a forma de conhecer e de se colocar no mundo, e que, por isso mesmo, todo conhecimento deve ser dado por direito a todos os homens sem distinção e com o máximo de qualidade e em toda amplitude possível, para que assim, de posse destes conhecimentos, que humanizam, promovem consciência social, humana, que possibilitam qualidade de vida a todos os homens e que estes possam pensar em alternativas de vida que privilegiem o maior número possível dos seres viventes. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O menino que descobriu o vento


 Hoje, após inúmeras indicações e insistências de amigos assisti ao filme O menino que descobriu o vento. Confesso que gostei muito, que me surpreendi  inclusive. Contudo,
 tenho a mais absoluta consciência de que minhas impressões foram bastante distintas das dos meus amigos, no que diz respeito ao papel do conhecimento científico ali tratado. Até o momento em que o menino esta saindo de casa para a ida à escola pareceu apenas mais um filme comum. No entanto, no momento em que o personagem que representa o pai faz a brincadeira da orelha, que para saber quando está na ora de ir pra escola basta tocar a orelha com a mão do lado oposto ao membro tocado e o menino responde "isso valeu para o primeiro ano". Entendo que esse é o momento em que fica claro que o menino já apresentava conhecimentos escolares (científicos) acumulados e dominados. No decorrer do filme em que o menino começa buscar por referências, e descobre a geração de energia pelo movimento constante do pedal da bicicleta do professor e o dínamo como propulsor dessa energia é, no meu entender, a concretização da prática como critério de verdade (tal como afirma Karl Marx). Ou seja a materialização de uma teoria que o menino já tinha o conhecimento (ainda que sincrético, como defende o professor Dermeval Saviani), que após orientação do professor e suporte da bibliotecaria, tal conhecimento fora elevado ao conhecimento sintético (hipótese também defendida por Saviani). Ao meu modo de ver então, o menino precisou dos conhecimentos sistematizados da escola para chegar ao nível de compreensão na construção do moinho. É claro que se trata ainda de um aluno cujo repertório social não era o mesmo de seus colegas da comunidade, o que podemos observar nas falas da mãe, em especial quando ela diz que em seu casamento o primeiro pacto que fizera com o marido é que eles não recorreriam à metafísica (não rezariam a Deus) para conseguirem chuva, de acordo com ela, eles acreditariam na ciência. A irmã e todo enredo em torno da fracassada ida da mesma para a universidade, o que também na fala da mãe era enfatizado o tempo todo como algo distinto da maioria das mulheres da época, tanto mais do vilarejo onde moravam. O fato de a família dar bastante valor ao conhecimento e incentivá-lo, inclusive escasseando recursos da alimentação, por exemplo, mostra o meio no qual o menino cresceu, no que diz respeito à família. O que extraio do filme portanto é que, quando Saviani defende que o conteúdo escolar precisa partir da prática social, ele não está dizendo da prática social individual, mas daquela que é coletiva. O filme, muito provavelmente não tenha tido interesse em apresentar o cenário educacional de Malawi, porém não se refuta em tratar dos entraves políticos que emperram a mesma assim como precariza a vida da população. Na vida escolar de Kamkwamba não houve produção de conhecimento, e sim transmissão. O personagem não criou nenhum conhecimento novo, o que ele inaugurou, sem dúvidas, foi a possibilidade de pôr em ação o conhecimento sistematizado que recebeu da escola. É, portanto, neste sentido que sigo defendendo que a escola deva encarregar-se de transmitir conhecimentos historicamente produzidos pelo gênero humano, para que assim, quando a vida concreta exigir, tal conhecimento possa ser posto em prática. Se este adolescente, por exemplo, tivesse nascido num país, cujos recursos fossem fartos e os seus professores defendessem que somente a realidade do aluno fosse necessária para o aprendizado, deixando assim de transmitir o conhecimento elaborado das funções da física no que diz respeito a produção de energia através dos ventos, será que este menino teria condições de por si mesmo descobrir os fundamentos da física que desembocam na ação de produção de energia eólica e, consequentemente seria capaz de construir tal artefato que mudou a sua vida e a vida de toda a sua comunidade? A meu juízo ficou bastante claro o quanto um aluno instrumentalizado com conhecimento pode fazer a diferença mesmo que tais conhecimentos cheguem antes da necessidade de colocá-los em prática, à exemplo do filme, uma vez que fica claro que a problemática da super seca e do solo encharcado não ter sido uma realidade sempre, tornando-se assim apenas após o desmatamento desenfreado. Para mim, o filme é um repertório rico da exploração do capital, tanto no que diz respeito a natureza vegetativa, quanto à natureza humana, essa última sendo ilustrada na cena de espancamento do líder do grupo. Em fim, um filme que valeu bastante a pena assistir.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

A farsa do ensino médio self-service

"Os estudantes não demorarão a perceber que a verdadeira liberdade de escolha continuará sendo privilégio dos que, na vida, sempre puderam frequentar restaurantes à la carte."*


 https://diplomatique.org.br/a-farsa-do-ensino-medio-self-service/








Direito a Educação | Brasil

por Débora Goulart e Fernando Cássio
12 de agosto de 2021