quinta-feira, 17 de junho de 2021

Como destruir a razão para manter a dominação.

Esse curso é uma tarefa obrigatória para todos que defendem a formação integral da classe trabalhadora. Um vídeo extremamente necessário e urgente. Atualíssimo, sobretudo em tempos de reforma do Ensino Médio e BNCC.




2ª Edição do Curso de Aperfeiçoamento "Movimentos Sociais e Crises Contemporâneas à luz dos clássicos do materialismo crítico"Tema: Introdução ao pensamento de György Lukács: ciência, ideologia e a destruição da razão. Professor: Angelica Lovatto Local: São Paulo Data: 25 de junho de 2016




Ciência, ideologia e a destruição da razão - Angelica Lovatto

sexta-feira, 11 de junho de 2021

REFORMA DO ENSINO MÉDIO E O TAL EMPRENDEDORISMO


Diz-se aos quatro cantos do país, quiçá do mundo, que é preciso reformar a escola, pois esta é uma instituição do século XIX, com professores do século XX e alunos do século XXI. O argumento cai como uma luva no nas mãos dos empresários da educação e, em especial da classe dominante que querem seguir precarizando mão de obra em todos os setores e caçando direitos trabalhistas e  sociais, no mesmo pacote. Em 1997 conclui meu Ensino Médio (a época segundo grau), no curso técnico em contabilidade. Era um período em que muito se falava em escola técnica, formação pra o trabalho, reivindicava-se que o sentido da escola, para a classe trabalhadora deveria estar em formar pessoas para adentrarem ao mercado de trabalho. A retórica por si já violenta os direitos educacionais dos alunos, uma vez que o comprometimento da educação escolar deveria ser com a ciência, com os conteúdos científicos, conhecimentos socialmente produzidos pela humanidade, não fosse o agravante da disciplina mais importante para a formação ter seguido os dois anos finais sem o referido professor da especialização, tendo nós sido aprovados por meio de meros trabalhinhos. Vejam que estou falando de 1997, século XX, quando ainda existia algum resquício rasteiro de ciência na escola. De lá pra cá muita coisa mudou. A educação sofreu mais umas duas reformas diretas e muitas outras indiretas, todas no mesmo direcionamento, de demonizar a ideia de transmissão dos conteúdos, como se fossem estes o problema central da escola e, portanto deveria ser combatido. Os conteúdos passam a ser então o vilão da educação, a surpresa é que tal narrativa agrada e seduz alguns dos professores tal qual o canto da sereia, que até mesmo se põem em combate contra a escola tradicional em seu aspecto científico e passam a secundarizar os conteúdos em defesa de uma educação pautada naquilo que o aluno "precisa saber", naquilo que o aluno "irá usar um dia", como se fosse possível prever o futuro deste aluno e definir o que terá nele (e, em se tratando do capitalismo até entendemos que o futuro seja mesmo fadado a uma vida de exclusão, no entanto a luta deveria ser pelo fim o capitalismo e não pelo fim dos conteúdos, que podem, em alguma medida, instrumentalizar a classe trabalhadora quanto a consciência social, filosófica - portanto política -, e artística). Num ciclo sem fim de modificações no âmbito da educação, uma hora na educação infantil, outra no ensino fundamental e médio e até mesmo no ensino superior, sobretudo na formação de professores para o século XXI, chegamos nele então, e mais precisamente no ano de 2020/21, em plena pandemia com um pandemônio educacional instaurado. A reforma do Ensino Médio que promete a realização plena, geral e absoluta dos alunos, é, na verdade a pá de cal em toda e qualquer saída para uma formação com bases científicas, onde apenas língua portuguesa e matemática são consideradas disciplinas regulares e, portanto, obrigatórias, entretanto com carga horária reduzida, levando-nos a crer que os rudimentos de leitura, escrita e cálculos simples não só estarão mantidos como seguirão sendo rebaixados. A narrativa que ganha papel de centralidade e passa a figurar um norte de conquistas para os alunos apresenta o nome de EMPREENDEDORISMO. Bem, não bastasse todas as questões que envolvem esse mais novo sonho da classe trabalhadora, que de novo só tem o nome e o avanço da precarização para concretizá-lo, o tema do empreendedorismo na escola é muito mais narrativa ideológica que conteúdo em si. Não existe disciplina organizada, técnicos especializados, profissionais no assunto. É como se o simples fato de se falar a palavra a materialidade do conceito, se é que existe, virasse uma realidade. Ou seja, é a educação do pensamento positivo, se você pensar que pode ser um empreendedor, a despeito do avanço da miséria, dos níveis mais elevados da inflação, da crise desmedida do desemprego. É neste cenário que se pretende fazer-nos acreditar na reforma empreendedora da educação, é a porta da esperança de uma classe há anos excluída dos direitos sociais mais básicos. É a reforma do sonho, mas não da classe trabalhadora, por certo!

sábado, 22 de maio de 2021

EDUCAÇÃO: SOBRE DIFERENÇAS E DESIGUALDADES


H
á quem diga que a escola ao definir seu currículo e lançar mão de seus conteúdos precisa levar em conta as diferenças. Defendem ainda que cada sujeito tem seu tempo, seus interesses e suas condições. A priori não discordamos de todo,    defendemos no entanto, que é preciso definir qual o papel central da escola para compreender onde encaixa e onde se perde tal afirmativa. Do ponto de vista da pedagogia defendida pela classe hegemônica, e em alguma medida referendada por setores progressistas (seja por ingenuidade, seja por acordos espúrios), a educação precisa pautar-se pelos interesses do sujeito e pelas condições de seu entorno, a isso não podemos dar outro nome que não seja legalização da(s) desigualdade(s). Nós, de nossa parte, defendemos que a escola parta da realidade social existente par promover caminhos que possibilitem a inserção do filho da classe trabalhadora no mundo dos conhecimentos históricos, filosóficos, científicos e artísticos. Afinal fazemos nossas escolhas dentro do leque de possibilidades que nos é apresentado, do nosso dia a dia, se este leque for empobrecido, limitado, nossas escolhas também assim serão. Ora, se no cotidiano temos apenas arroz e feijão para nossa alimentação, não temos como escolher caviar, ainda que seja nosso interesse, caso tenhamos conhecimento da  existência de tal iguaria. Como bem diz a música de Zeca Pagodinho "Você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi eu só ouço falar!" Pois bem, esse é o leque de possibilidades apresentado pela pedagogia burguesa aos filhos da classe trabalhadora. Impedem que a classe trabalhadora conheça as características, do ponto de vista qualitativo e econômico do caviar, não negam a existência, mas incentivam o desinteresse dada a distância da posse, assim ocorre com o conhecimento, e não apenas ao aluno, mas também ao professor que forma essa classe (trabalhadora). Diferença, portanto, é a cor dos olhos, do cabelo, a estatura, a estética, o prazer ou não prazer. O que a educação da classe burguesa propõe é desigualdade. É abortar o futuro do povo trabalhador, que em sua maioria tem diferenças pontuais no que diz respeito à raça e sobretudo classe. Logo, a pedagogia burguesa usa a diferença para legitimar as desigualdades, uma vez que, se apenas a elite econômica do país te
m acesso aos conhecimentos hitoricamente produzidos, está nas mãos dela os melhores postos de trabalho, as melhores cadeiras nas universidades, as melhores chances de compreenderem os processos nos quais se formam as questões sociais seja no âmbito da política, filosofia, história e ciência. Está nas mãos da classe burguesa conhecer as bases sociais em que vivemos e demandar dela seus interesses, inclusive escamoteando a realidade e usando de premissas aparentemente verdadeiras para impregnar novos direcionamentos,  usando por vezes narrativas aparentes para criar necessidades inexistentes. É, pois no seio da classe burguesa, que se legitima a desigualdade, que nasce as mais falaciosas retóricas cujo objetivo seja frustrar ações da classe trabalhadora, exemplo bem marcante de tal falácia reside na tão propalada verbosidade em que afirmava fazer mal o consumo de manga com leite, a argúcia dos proprietários de terra que ensejavam manter intactas tuas propriedades, ainda que seus trabalhadores, em sua maioria escravos morressem de fome levou a cabo uma das afirmativas mais esvaziada de sentido científico já existente, usando casos isolados como exemplo e ignorando as condições sociais e econômicas dos trabalhadores expostos à riscos de mortes atribuídos levianamente à manga e ao leite, que hoje rendem um delicioso mousse. É urgente, então, entender que uma pedagogia que recorre as diferenças para legitimar as desigualdades precisa ser combatida. Não obstante não basta apenas desejar combatê-la, mas munir-se de conhecimento para que tal combate alcance objetividade e resultados, ao que, no meu modo de perceber apenas a Pedagogia Histórico-crítica vem dando conta de atender as necessidades urgentes da classe trabalhadora de dominar o que a classe dominante não apenas domina, todavia, que ano após ano vêm consolidando-se como proprietária exclusiva dos conhecimentos genéricos, humanamente produzidos pela classe de trabalhadores, ainda que respeitando seus estratos mais distintos. É urgente, por conseguinte, travar uma batalha ferrenha para trazer de volta para o seio da escola aquilo que ela tem, por excelência como fundamental: o conhecimento!

segunda-feira, 29 de março de 2021

SOBRE RACISMO E USO POLÍTICO DA RAÇA


 Nos últimos tempos, em que  questão de gênero e raça ganha corpo e engrossa a luta por direitos e garantias de grupos historicamente negligenciados em sua humanidade seja pela cor da pele, ou pelo gênero ao qual pertence, tem crescido também o oportunismo político em torno de tais pautas, urgentes, necessária e fundamentais para a garantia da humanidade desses grupos. Na história do Brasil, capitães do mato, homens pretos, mas muitos brancos e mestiços também, açoitavam outros homens, mulheres e crianças pretas em nome dos senhores de terra, numa relação de poder imaginária, visto que o poder continuava sendo dos senhores, e os capitães apenas os que usavam a força, que inclusive se voltava, em alguns casos, para eles mesmo. O país, que se quer dá mostra de liberdade aos povos trabalhadores, e menos ainda aos povos pretos e as mulheres, vem sofrendo nas mãos de grupos que legitimam a perversidade contra os seus iguais, seja pela classe a que pertencem (trabalhadora), seja pela raça e/ou gênero. Não bastasse a legitimação das perversidades, como vem ocorrendo na Secretaria Municipal de Educação da cidade de Cabo Frio, onde o secretário de educação, professor, homem negro, vem açoitando seus companheiros de trabalho, no mesmo requinte de perversidade que nossos ancestrais, capitães do mato. No último contra cheque esses trabalhadores tiveram mais de 94% de perda de seus salários por exercerem um direito constitucional à greve, sobretudo nesse momento de incertezas sobre a saúde e a vida, massacre esse pelas mãos de um homem negro, professor e agora, secretário de educação. Não contente com a perversidade desferida aos que um dia já foram seus companheiros de trabalho, e que logo, logo voltarão a ser, e a história não permitirá que essa lembrança se apague, partidários do senhor secretário, homem negro, professor, vem dando uso político para uma pauta tão importante como a do racismo para atribuir tal comportamento a um sindicato e uma categoria que cobra e de forma extremamente acertada, tal perversidade de um homem negro, professor, e portanto capitão do mato, como bem a história nos mostrou ao longo de toda escravidão. Ora senhor Flávio, não queira status de Zumbi dos Palmares quando tua postura é de capitão do mato, e dos mais perversos! 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Educação mercadoria e mercadoria educação


 A Cogna (gigante da educação privada) e a Eleva, fizeram acordo de mais de meio bilhão de reais, na última semana (clique aqui) dominando assim o mercado privado da educação básica. Se essa ação por si só não desperta na classe docente uma interrogação sobre as novas demandas da educação pública, inclusive reivindicada pelo maior acionista da educação privada no país, significa que há muito temos ignorado a função social da escola, qual seja, de formar a classe trabalhadora em condições de dominar os conhecimentos historicamente produzidos e com vistas à emancipação humana. Na medida em que grandes corporações adquirem com recursos milionários empresas de conhecimento, significa dizer, imediatamente, que esses conhecimentos serão privatizados. Portanto, não será dada a classe trabalhadora condições de se apropriar dos mesmos, e nem se quer minimamente, não a toa, a nova BNCC que de nova só tem a efetivação normativa nos currículos escolares, exclui de maneira muito clara o acesso ao conhecimento para a classe trabalhadora, secundarizando e até dispensando os conteúdos. Num discurso cínico e demagógico os idealizadores da BNCC, proprietários desses aparelhos privados de hegemonia (donos de grandes corporações educacionais), dos quais entram a Fundação Leman -proprietária da Eleva -, o Todos pela Educação, Instituto Natura, Fundação Itaú, entre muitos outros, afirmam que "o país sempre naturalizou desigualdades educacionais" em relação ao acesso à escola, à permanência dos estudantes e a seu aprendizado. Afirmam ainda que são amplamente conhecidas as enormes desigualdades entre os grupos de estudantes definidos por raça, sexo e condição socioeconômica de suas famílias. O que não dizem, contudo é porque para uma classe, a que domina, os conhecimentos continuam sendo base fundante de sua formação, enquanto para a classe menos favorecida apenas competências, em destaque as competências emocionais, para aceitar facilmente as contradições do mundo em que vivem?! O referido documento, reforçando a LDBN de 1996 enfatiza que a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e da prática social, ou seja, muda mas quase nada, e ainda esconde a que mundo do trabalho se referem, o que não afirmam, no entanto é de que mundo do trabalho se trata, claro que temos uma pista, a única, trata do mundo do trabalho precarizado que vem sendo implantado nos países explorados pelo capital, onde o trabalhador não tem direitos, precisa dispor das ferramentas para o trabalho, não possui horas de descanso, ou seja, é a uberização* dos sujeitos, donos de suas ferramentas de trabalho, sem direito à saúde, férias, fundo de garantia, descanso remunerado, seguro acidente de trabalho e etc. É nessa lógica de precarização que a BNCC define o mundo do trabalho, sujeitos com o mínimo de conhecimentos científicos, apenas os rudimentos de leitura, escrita e cálculos matemáticos simples servindo como exército industrial de reserva ao capital. As propostas de formação elaborada por esses aparelhos privados de hegemonia, com aval do estado, uma vez que esses grupos incorporam e comandam os conselhos educacionais país afora é de exclusão do trabalhador de um mundo menos desigual, em que eles possam estar em pé de igualdade com os filhos da classe burguesa na hora de disputar vagas em postos de trabalhos ou em bancos de universidades, mas, principalmente de negar que os dominados se apropriem dos conhecimentos que os dominadores dominam. Diante desse agigantamento dos APHs** da educação básica é preciso que os educadores compreendam o significado e a importância de vencer a disputa pela posse dos conhecimentos e mais que isso pelo direito de transmiti-los aos filhos da nossa classe.

*Ricardo Antunes, no livro O privilégio da servidão, elaborou a categoria uberização do trabalho, por entender que esse momento em que se encontra a forma de exploração capitalista a palavra precarização já não dá mais conta de explicitar o nível de exploração e desvalorização da força de trabalho.

**Aparelhos Privados de Hegemonia

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O dia em que Carlos Drummond de Andrade leu-me

 


A Flor e a Náusea 

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. 

Melancolias, mercadorias, espreitam-me. 

Devo seguir até o enjôo? 

Posso, sem armas, revoltar-me? 

Olhos sujos no relógio da torre: 

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

 O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. 

O tempo pobre, o poeta pobre

 fundem-se no mesmo impasse.

 Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

 Sob a pele das palavras há cifras e códigos. 

O sol consola os doentes e não os renova.

 As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. 

Vomitar este tédio sobre a cidade. 

Quarenta anos e nenhum problema

 resolvido, sequer colocado. 

Nenhuma carta escrita nem recebida. 

Todos os homens voltam para casa.

 Estão menos livres mas levam jornais

 e soletram o mundo, sabendo que o perdem. 

Crimes da terra, como perdoá-los? 

Tomei parte em muitos, outros escondi. 

Alguns achei belos, foram publicados. 

Crimes suaves, que ajudam a viver.

 Ração diária de erro, distribuída em casa. 

Os ferozes padeiros do mal. 

Os ferozes leiteiros do mal.

 Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

 Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

 Porém meu ódio é o melhor de mim. 

Com ele me salvo 

e dou a poucos uma esperança mínima. 

Uma flor nasceu na rua! 

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. 

Uma flor ainda desbotada 

ilude a polícia, rompe o asfalto. 

Façam completo silêncio, paralisem os negócios, 

garanto que uma flor nasceu. 

Sua cor não se percebe. 

Suas pétalas não se abrem. 

Seu nome não está nos livros.

 É feia. Mas é realmente uma flor. 

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

 e lentamente passo a mão nessa forma insegura. 

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. 

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

 É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. 

(Carlos Drummond de Andrade)