sábado, 22 de maio de 2021
segunda-feira, 29 de março de 2021
SOBRE RACISMO E USO POLÍTICO DA RAÇA
Nos últimos tempos, em que questão de gênero e raça ganha corpo e engrossa a luta por direitos e garantias de grupos historicamente negligenciados em sua humanidade seja pela cor da pele, ou pelo gênero ao qual pertence, tem crescido também o oportunismo político em torno de tais pautas, urgentes, necessária e fundamentais para a garantia da humanidade desses grupos. Na história do Brasil, capitães do mato, homens pretos, mas muitos brancos e mestiços também, açoitavam outros homens, mulheres e crianças pretas em nome dos senhores de terra, numa relação de poder imaginária, visto que o poder continuava sendo dos senhores, e os capitães apenas os que usavam a força, que inclusive se voltava, em alguns casos, para eles mesmo. O país, que se quer dá mostra de liberdade aos povos trabalhadores, e menos ainda aos povos pretos e as mulheres, vem sofrendo nas mãos de grupos que legitimam a perversidade contra os seus iguais, seja pela classe a que pertencem (trabalhadora), seja pela raça e/ou gênero. Não bastasse a legitimação das perversidades, como vem ocorrendo na Secretaria Municipal de Educação da cidade de Cabo Frio, onde o secretário de educação, professor, homem negro, vem açoitando seus companheiros de trabalho, no mesmo requinte de perversidade que nossos ancestrais, capitães do mato. No último contra cheque esses trabalhadores tiveram mais de 94% de perda de seus salários por exercerem um direito constitucional à greve, sobretudo nesse momento de incertezas sobre a saúde e a vida, massacre esse pelas mãos de um homem negro, professor e agora, secretário de educação. Não contente com a perversidade desferida aos que um dia já foram seus companheiros de trabalho, e que logo, logo voltarão a ser, e a história não permitirá que essa lembrança se apague, partidários do senhor secretário, homem negro, professor, vem dando uso político para uma pauta tão importante como a do racismo para atribuir tal comportamento a um sindicato e uma categoria que cobra e de forma extremamente acertada, tal perversidade de um homem negro, professor, e portanto capitão do mato, como bem a história nos mostrou ao longo de toda escravidão. Ora senhor Flávio, não queira status de Zumbi dos Palmares quando tua postura é de capitão do mato, e dos mais perversos!
domingo, 28 de fevereiro de 2021
Educação mercadoria e mercadoria educação
*Ricardo Antunes, no livro O privilégio da servidão, elaborou a categoria uberização do trabalho, por entender que esse momento em que se encontra a forma de exploração capitalista a palavra precarização já não dá mais conta de explicitar o nível de exploração e desvalorização da força de trabalho.
**Aparelhos Privados de Hegemonia
terça-feira, 16 de fevereiro de 2021
O dia em que Carlos Drummond de Andrade leu-me
A Flor e a Náusea
Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
(Carlos Drummond de Andrade)
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Por uma educação contra hegemônica
Esse texto inicia com uma pergunta feita por uma amiga leitora no texto anterior Em que medida a escola pode ser espaço contra hegemônico? Como construir isso no cotidiano escolar? Como indivíduos tão imersos e subjugados à essa lógica e que se desumanizam no desempenho das suas atividades podem se transformar em sujeitos coletivos e insurgentes? Responder essas questões não é tarefa fácil e tampouco definitiva, sobretudo por entender a educação, enquanto instituição, como um projeto burguês cuja algumas das finalidades seja de manter a ordem social estabelecida. Diante disso, pensar uma educação contra hegemônica só é possível se pensarmos na formação do professor com vistas a emancipação humana, levando em conta a formação para o domínio dos conhecimentos historicamente produzidos, inclusive nesta sociedade. É, pois nesse aspecto então que esbarramos com a realidade que está posta. Uma vez que a formação do professor no Brasil e na maioria dos países periféricos do capital se dá de forma a atender as expectativas do mesmo, não a toa as reformas educacionais ao longo dos anos impele os professores a formação comportamental e emocional do aluno, enquanto indivíduo, ignorando a formação social para o desenvolvimento na e para a sociedade. É preciso lembrar que para os defensores duma educação transformadora, os avanços dela se dá mediante a formação plena dos indivíduos para a vida em sociedade, seja no que diz respeito aos clássicos científicos, e por clássicos se entende aquilo que está em pleno vigor na atualidade, logo o que não foi superado, não foi substituído, seja nas concepções de relações sociais humanas, artísticas da natureza... Vale atentar ainda para a triste e violenta realidade de que a formação do professor, que tal qual a formação do aluno, também vem seguindo a lógica das competências emocionais, sob a bandeira da resiliência, um canto da sereia, como diz o professor Newton Duarte, para aprisionar professores na ideia de que seus fracassos ou "sucessos" sejam frutos da capacidade, ou falta dela, de se reinventarem. Isso posto, em que medida podemos construir essa escola contra hegemônica? Primeiro apontando as contradições do próprio sistema, suas lacunas, suas falsificações, ainda assim não se apresenta tarefa fácil. É urgente, todavia provocar a consciência dos professores para o sonho que a educação burguesa vem tentando vender ao longo de décadas e que não apresenta qualquer possibilidade de realizar-se, o sonho do pleno emprego, o sonho de que a educação pode abrir as portas para um futuro promissor, de que a escola pode sozinha resolver questões sociais e econômicas. São nessas falsificações que a proposta de escola contra hegemônica precisa ser pensada, uma vez que ao longo de séculos a escola burguesa atuou com papel de exclusão fundamental, mantendo a lógica perversa de formar mão-de-obra barata, descartável e em grande escala, promovendo o exército industrial de reserva. É urgente portanto construir na massa de trabalhadores da educação a noção de que a lógica dominante para a educação não coaduna com o projeto educacional do qual os educadores defendem, mesmo o professor que, porventura tenha tido a mais rasa ou frágil formação, tem por certo que a escola precisa preparar o sujeito para conhecer a si e ao mundo, no entanto, é o conceito de mundo que vem sendo negado não só aos estudantes, como aos professores que os formam, limitando o conceito universal para local, definindo que o sujeito precisa apenas dominar aquilo que lhe é próprio, do seu espaço, seu ambiente, dificultando, com isso que esses sujeitos rompam com o senso comum e ascendam à consciência filosófica. Portanto, só se constrói uma educação contra hegemônica, se se dispõe a romper com a lógica burguesa dominante. E o papel da escola nesse sentido é formar a classe trabalhadora nas bases científicas, históricas, humanas, artísticas e sociais. Rebelar-se contra esse projeto nefasto de educação é preciso, e já!
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Maiakóvski O poeta da revolução
E ENTÃO, QUE QUEREIS?
Fiz ranger as folhas de jornal
Abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
De cada fronteira distante
Subiu um cheiro de pólvora
Perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
Nada de novo há
No rugir das tempestades
Não estamos alegres,
É certo,
Mas também por que razão
Haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
É agitado.
As ameaças
E as guerras
Havemos de atravessá-las.
Rompê-las ao meio,
Cortando-as
Como uma quilha corta
As ondas.
1927
— Vladimir Maiakóvski, o Poeta da Revolução.
Tradução de E. Carrera Guerra, 1987.
domingo, 29 de novembro de 2020
O TRABALHO COMO DESUMANIZAÇÃO NO CAPITALISMO
"Na Grécia antiga, quando a sociedade se mantinha pela utilização do trabalho escravo, e a escola era o lugar do ócio e da prática de esportes, as funções intelectuais ficavam restritas a uma pequena parcela da sociedade. Na Idade Média, a sociedade era sustentada pelo trabalho servil, pelo cultivo da terra, desenvolvido segundo técnicas simples e reiterativas que não exigiam a incorporação de conhecimentos sistemáticos. “Quem se dedicava ao trabalho intelectual era a parcela dos intelectuais, fundamentalmente concentrada no clero."http://www.sites.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/edupro.html#:~:text=246)%2C%20f%C3%A1brica%20e%20escola%20nascem,249).
(...)"o homem, por via do trabalho, passa a controlar seu comportamento, da mesma forma que domina a natureza. Esse movimento não é individual, mas fundamentalmente coletivo e responsável pela constituição da cultura. Como resultado desse processo, temos que o homem singular (o indivíduo) humaniza-se, torna-se parte do gênero humano (universalidade) ao produzir-se a si mesmo por meio do trabalho(...)" https://www.scielo.br/pdf/psoc/v23n3/05.pdf




